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Sementes de angústia

No solo infértil do meu coração
Plantava esperanças e sonhos
Mas nada florescia
Fosse com música, fosse com poesia

Um solo fraco
Regado a álcool
Que sem ver a luz do dia
Estava angustiado e sem energia

Sem recurso nem cuidado
O capim crescia para todo lado
Mesmo desacreditado e sem um pingo de sorte
Ia à procura da semente mais forte

Plantei a semente do amor
E a cuidei noite e dia
E mal acreditava
Quando aos poucos ela crescia

Ao vê-la tomando conta do jardim
Enfim podia me orgulhar
Contemplar sua beleza
Me causava bem estar

Mas da noite pro dia
Acordei com uma surpresa
Vendo a flor arrancada
E pisoteada a sua pureza

E cheio de pesar
Vejo-me novamente rodeado por capim
Pois se colhe o que se planta
E só vejo dor nesse jardim

Felipe Daltoé

Transfusão de poesia

Elas vem, elas vão
Levando consigo pedaços de um coração
Elas entram, elas saem, é assim que é
Mas nem ficam tempo suficiente para tomar um café

Elas vem, nuas e cruas
Cheias de amor, levam-me para a lua
Pra depois me regurgitarem em um canto qualquer da rua

Elas vem, abrem a porta
Deixam meu coração frio como o inverno
Só para então, um tempo depois, transformarem a minha vida em um inferno

A melancolia, companheira fiel
E o sangue da poesia que derramo no papel
Descrevem meus dias com exatidão…
Lagrimas e escritos esparramados pelo chão

Pedaços de mim espalhados
Como um quebra-cabeça faltando uma peça
Buscando encaixar-se

Mas o encaixe, por mais que não pareça
Está dentro de nossas próprias cabeças
Não está em ninguém mais
Como saberás reconhecer o amor em outro
Se nem teu próprio amor te satisfaz?

Preencho o lugar da peça sobressalente
Com substâncias entorpecentes
Sinto-me fraco, sinto-me mal, desmaio
Estou a caminho do hospital

Chegando lá, ouço aquela gritaria
“Doutor, doutor, está sendo chamado na sala de cirurgia”

“É, é um caso grave, quem diria, esse aqui precisa urgente de um coração novo e uma transfusão de poesia”.

“E sem anestesia”.

Felipe Daltoé

Pode ler-me

Na angústia final do nosso relacionamento,
Você teve a astúcia de me aconselhar
A me consolar nos derradeiros pensamentos
Que poderiam salvar da dor do sofrimento
De te ver passar com a quem faz agora seus olhos brilhar

E me disse: Transforme sua dor em poesia
Mas pra que tanta demasia¿
Se os versos não estão ancorados somente em dor
E nem são escritos com tanto pudor

E estes que te faço
Na saudade do desenlaço
São de puramente gratidão,
Pois encontrei no acaso outra paixão

De fazer da sofreguidão nada mais
Do que usar o coração sublime
Escrivaninha antes encostada no cais
Que dá vida e faz essas palavras sorrir-me.

Não poderia deixar de compartilhar contigo
Posto que me recordasse do que havia dito
Peço-te, com carinho leia, mas não tome por leis
E Apenas agora não me odieis.

Élida Vieira

Loucura

Loucura é coisa de louco

Enquanto o mundo gira pra lugar nenhum
Enquanto o ano passa rápido e a semana não
Enquanto a gente pensa e não faz

Loucura é não sentir prazer

Não ver no dia a dia a beleza
Não ver na rotina a própria existência
Não fazer do tédio um companheiro na hora da solidão

Loucura é não querer a solidão

É se deliciar com prazeres prontos
É repetir frases feitas
É dizer que pensa e pensa

Loucura é coisa do mundo

Por Ser só o que É

Não importa quais ou quantas foram as possibilidades: cada um fez uma escolha e nada mais. Não importa o que aconteceu ou o que poderia ter sido; são apenas hipóteses e não fatos. Não dá pra pensar no que não é.

Há o fácil que tentamos explicar
e complicamos.
Há o complicado que deixamos para lá
e facilita.
Explica-se por si
por ser Só o que É
Por não saber que é o que
Há beleza,
Não há silêncio consolador
mas o absurdo faz parte da vida.
Não há como impedi-lo
nem porque fazer isso
que não se desfaz
mas se refaz
e toma o resto de si pra si.
O resto de um rosto
sem beleza palpável
de duvidosa dor ou felicidade.
Não explica os termos
não define os conceitos
apenas se esvai.
E se vai, volta…
Todo dia.

Gabriela de Oliveira

Outro Ritmo

É outro ritmo
Ainda que no mesmo tom
São frutos de coisas que mudam
E continuam sempre iguais
Há bem mais em um dia
Do que qualquer vidente pode prever
Há tão pouco em uma vida
Quando se compara
Com o que ainda está pra ser

São tantos os possíveis dessa vida
E a gente escapa por pouca coisa
Tanto acaso escondido no detalhe
Que insistimos no sentido
Que não é sentido.