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Crônica no vaso

         Seis e quarenta da manhã, já estava acordada há alguns minutos, mas, como de costume, esperei até meu pai abrir a porta do quarto com o intuito de interromper meu sono com o feixe de luz branca que vinha da cozinha e mirava na minha cara. Assim o fez.
Levantei meio indisposta, vesti o primeiro moletom que o guarda-roupa me deu e saí para começar mais um dia. Ou quase isso.

            Ao sair pela porta dos fundos encontrei meu gato que, interesseiramente, veio me roçar as pernas. Dei atenção pra ele, ninguém mesmo resiste àqueles olhinhos arregalados com fundo amarelo. Tomei o cuidado de não perder a hora, pois, infelizmente, ainda vivo em uma sociedade exterminadora de sonhos – literalmente – já que sempre desconfiei que o melhor horário para dormir fosse das cinco da manhã em diante… Mas, após os sonhos interrompidos pelo brilho de mais um dia atarefado, seguimos.

            Vou até o banheiro. Meu gato me rodeia. Com o rabo erguido e o passo acelerado para me acompanhar. Chegamos ao banheiro, me olhei no espelho e pensei que pior do que aquilo não ficaria – me animei. O gato seguiu me adulando.

            Arredei as calças olhando de canto para o gato. Sentei no vaso e me concentrei em um canto qualquer. Eis que senti o olhar do bichano me penetrar como um laser penetra as camadas de pele em uma cirurgia. Olhei para ele, parecia fraterno.

Ele se ajeitou e impulsionou as patas traseiras pretendendo pular no meu colo, e, antes que eu pudesse reprovar a atitude do gatinho, ele já se encontrava ronronando e se aninhando nas minhas pernas despidas.

            Até então, tudo que eu havia eliminado era o que meu sistema digestório processou durante a noite, mas o “ron-ron” do meu gatinho fez eliminar toda carga de pensamentos negativos que precipitava no fundo da minha mente.

            Deus da transmutação de energia – pensei.

Mas pode ser que ele apenas tenha aprendido a disfarçar o interesse no olhar e só queria mesmo a sua ração. É justo, afinal.

            Desci-o cuidadosamente, subi as calças, dei descarga.

            Aí sim, saí para começar mais um dia.

Bruna Alessandra Müller

Sementes de angústia

No solo infértil do meu coração
Plantava esperanças e sonhos
Mas nada florescia
Fosse com música, fosse com poesia

Um solo fraco
Regado a álcool
Que sem ver a luz do dia
Estava angustiado e sem energia

Sem recurso nem cuidado
O capim crescia para todo lado
Mesmo desacreditado e sem um pingo de sorte
Ia à procura da semente mais forte

Plantei a semente do amor
E a cuidei noite e dia
E mal acreditava
Quando aos poucos ela crescia

Ao vê-la tomando conta do jardim
Enfim podia me orgulhar
Contemplar sua beleza
Me causava bem estar

Mas da noite pro dia
Acordei com uma surpresa
Vendo a flor arrancada
E pisoteada a sua pureza

E cheio de pesar
Vejo-me novamente rodeado por capim
Pois se colhe o que se planta
E só vejo dor nesse jardim

Felipe Daltoé