Arquivo de etiquetas: amor

A(s)sombra

Sempre há você em mim,
Mesmo não havendo
Disfarce para a sombra
De dúvidas que assombra
Meu coração ao meio-dia
Da tua alma que grita
Por um pouco mais de ar
Pra ânsia do meu peito
Asmático destemido amar
Que mesmo já sem chance
Atropelou o destino a tempo
Comeu o vento pelas bordas
E depois de você visitou
O relento de qualquer outro
Sem ousar ser de mais
Ninguém.

Ana Oliveira

O amor que era de vidro

Já não sei mais escrever sobre nós
Há uma lacuna na pele e no peito
Há também uma memória escassa
Que se perde na casa dos sentidos
Que sem cheiro, abraço ou canção
Realçam as cores do esquecimento

É como uma fina xilogravura
Que a mão do tempo não apaga
Mas empalidece suas linhas

Escrever sobre nós ainda é
A tentativa de nos resguardar
Dessa lua viúva de boca amordaçada
Desse indócil acaso de pés acorrentados

Ana Oliveira

Memórias

O retrato guarda o momento,
vejo pessoas que não querem ver.
O livro guarda a história,
ouço pessoas que não querem ouvir.

As portas guardam as casas,
sinto pelas pessoas que não querem sentir.
As janelas guardam o vento,
e eu canto, pelas pessoas que não querem sorrir.

As marcas no rosto guardam o tempo.
Tempo esse que não irá voltar.
E, sabendo disso, te pergunto:
Você não tem vontade de amar?

A consciência guarda a razão,
Que todos seguem, sem entender…
Já o amor não consegue ficar guardado.
Ele está aqui, e eu vou deixá-lo florescer.

Guiomar Baccin

Ao amor*

Quando amamos, caminhar é sorrir.
Ir é encontrar;
Partir é chorar.
Quando amamos, tentar é conseguir.

Quando amamos, ajudar é crescer.
Levantar é progredir;
Falar é aconselhar.
Quando amamos, não desistir é vencer.

Quando amamos, ler é tocar.
Pensar;
Tentar;
Fazer.
Quando amamos, sonhar é realizar.

Quando amamos, olhar é sentir.
Escrever é partilhar;
Sorrir é tentar.
Quando amamos, cantar é ouvir.

Quando amamos, pensamos por amor.
Sentimos na terra, o luar,
E amamos só de pensar.
Amamos. E amar é encantar.

Guiomar Baccin

*poema publicado no livro “Vem comigo; depois te explico”, em 2007.

Amarelazular

Não quero você pra mim
Quero do meu lado
E um amontoado de risadas
Quero tudo e o nosso nada
Ócio e suor
Leitura e textura
Dançar pra chamar chuva
Correr pra virar bruxa
Sangrar pra virar amor

Quero páginas sujas e lidas
O doce mais doce (que cebola)
Cada cor dentro da outra
Pra amanhecer no debruçar
Sopro e calor
Discos e riscos
Vomitar borboletas escritas
Transcender pra virar céu

E amarelazular!

Anna Poulain

Ressaca moral

Olho fixo através da vidraça
E sem notar o tempo que passa
Espero esperançoso lhe ver passar
Enquanto vagarosamente você se afasta

Busco sentido
Naquilo que estou sentindo
E sem te sentir
Bebo até perder os sentidos

Vagueio pela rua
Cambaleando a sua procura
E adentro de bar em bar
Na tentativa de me encontrar

Madrugada adentro
Ecoando de beco em beco
Escuta-se o meu lamento
A noite não faz julgamento

Ao final da caminhada
Exausto, infausto, e sem suporte
Desmaio em uma poça de minha própria ilusão
A ressaca moral é sempre a mais forte…

Felipe Daltoé

Soneto da morte do amor

desista do meu choro, suplico
pois é ele que me escolhe
o choro do cavaquinho, do Chico
o choro do morro que engole

chega de só querer mar vasto
concentra no miúdo, no luzeiro
é ali que nasce o mundo casto
chega deste choro milagreiro

provoca o riso mesmo com lágrima
finge, disfarça, que logo passa
e vai manchando página por página

é do chorar que se escreve a dor
e da tristeza se arranca a sorte
de um amor, que por ora é morte.

Anna Poulain