Metamorfosis

Metamorfosis

Maldita sea la poesía
Que nos hace metamorfosear
Los vómitos en cosas bellas
El poeta pega las tristezas
Lava bien, rutina, amasa
Mistura con ingredientes dulces
E vira verso, después,
Distribuye en pociones generosas
O homeopáticas por el universo
Va a depender de la dosis del alma
Que necesita cada corazón
Cuando el dolor quiere ser amor,
La pluma sienta e escribe.

Ana Oliveira

Tradução:

Metamorfose

Maldita seja a poesia
Que nos faz metamorfosear
Os vômitos em coisas belas
O poeta pega as tristezas
Lava bem, separa, amassa
Mistura com ingredientes doces
E vira verso, depois,
Distribui em poções generosas
Ou homeopáticas pelo universo
Vai depender da dose de alma
Que cada coração precisa
Quando a dor quer ser amor
A caneta senta e escreve.

Ana Oliveira

Choro canção

Pega teu coração na mão
Aperta até esmagar essas palavras
Que vomitam ordem aos teus medos
Junta a coragem que te resta
E não diga mais que vai ser sempre assim,
Pedaços dilacerados pelo chão
E vontades pisadas pela garganta muda
Será que sorrir sem memória
É melhor que viver de lembranças?
Pior ainda é saber,
Que de morrer de amor ninguém morre
Que o trabalho dignifica o homem
Mas a obrigação destrói o artista
Junta teus cacos
E engole o álcool num choro só canção
De manhã, pede mais noite no quarto
que a lua amanhece com fome
Pois o tempo é aquele que diz sim
E aquele que diz não.

Ana Oliveira

Feminista

Foram tantos anos coberta
Ela é mulher “não pode ser esperta”
Mas aprendeu que não valia a pena
Ignorantes são eles
Não sou o problema
Indagou tudo
Sentiu tudo
Tamanha paixão explodindo do peito
Ainda assim, a moça “não se dava o respeito”

Marcas no corpo e no coração
Como Alice caindo num poço sem chão
Porém encontrou refúgio
Nos braços de outras mulheres
Que julgavam aquelas atitudes com repúdio
Aprendeu a amar-se
Cada pedacinho de seu corpo fazia parte
Cada traço do seu corpo era poético

E aos que julgavam como errado
Ela simplesmente pensava:
Patético!

Caroline Bach Frey

Selva de pedra

Muros de concreto
Hipocrisia a céu aberto
Prédios com espaço e vagas
Mas mesmo assim, muitos indigentes dormem nas calçadas

Falta solidariedade
Hospitalidade? Só para o rico
Que permanece impudico
Mesmo frente ao público
Sem nem ao menos entrar em pânico

Punição para quem rouba pão
E pra corrupção?
Ah, absolvição
Resolveremos isso na próxima sessão

Enquanto os carros pernoitam em estacionamentos fechados
O mendigo, amigo, está com os dias contados
Passando frio, fome
Acho que ele sequer lembra do próprio nome

Sociedade selvática, fanática, problemática
Que quando não nos trata como invisíveis
Nos trata como animais, irreais

E enquanto os “meritocratas”
Vivem no luxo de suas cidadelas
O povo pobre monta seus barracos
Nas favelas

Feliz daquele que ao menos tem um teto
E não é mais uma mescla de carne/concreto
Sendo pisoteado por algum imundo
Que ainda tem a audácia de dizer
“Vai trabalhar, vagabundo!”

E numa tentativa frívola de subjugar-nos ao sistema
As proibições são extremas
E na cabeça dos abastados
Só palpita um dilema
Escravidão ou algema?

No comando de déspotas autoritários
Com comportamentos arbitrários
E gestos temerários
Vivemos em um país totalitário

Onde tudo gira em torno do capital
Onde o amor pelo dinheiro tornou-se incondicional
Muitas formas de conseguir essa grana são imorais, inconstitucionais
E a riqueza está detida nas mãos de poucos
Que operam por debaixo dos panos
Deixando-nos apenas com os sonhos

Enquanto isso a revolução vagarosamente dá seus passos
Na busca por reaver os espaços
Que são nossos por direito
E que nos são tirados por algum eleito

Mas a esperança ainda bate no peito
E nesse mundo não há um sujeito
Que nos faça baixar a cabeça
Não se esqueça

Que não há sequer um maldito sujeito
Que nos desvie da nossa conduta
De almas que clamam mudança
De corações que clamam por luta.

Felipe Daltoé

Choro canção

Pega teu coração na mão
Aperta até esmagar essas palavras
Que vomitam ordem aos teus medos
Junta a coragem que te resta
E não diga mais que vai ser sempre assim,
Pedaços dilacerados pelo chão
E vontades pisadas pela garganta muda
Será que sorrir sem memória
É melhor que viver de lembranças?
Pior ainda é saber,
Que de morrer de amor ninguém morre
Que o trabalho dignifica o homem
Mas a obrigação destrói o artista
Junta teus cacos
E engole o álcool num choro só canção
De manhã, pede mais noite no quarto
Que a lua amanhece com fome
Pois o tempo é aquele que diz sim
E aquele que diz não.

Ana Oliveira

Feito poema

Candura de coração
tão suave são seus olhos cor de céu
que nenhum véu pode encobrir
tamanha leveza em seu ser.
À beleza, cá olhando para ela, aprendi:
não advêm de seu corpo, de seus olhos
azuis celestiais, tampouco de seus lábios
sempre sorrindo, mas de sua
munificência para com a vida. Assim,
ela era, toda inteira:
poesia.

Marcelo Schabarum

Masoquismo sentimental

A dor que clama
O peito que arde em chamas
As unhas que me arrancam a carne, rasgando-me por dentro
E o sangue que jorra
Como um mar de sofrimento

Os gritos de lamúria
E os tapas da vida, cheios de fúria
Mas que também trazem prazer
Será mesmo que após tantas pancadas
Passei a gostar de sofrer?

Aprendi a apreciar a melancolia
Com a decepção nossa de cada dia
Vivendo com a solidão em demasia
Como um vício inerente

Um veemente tipo de dor
Recorrente desamor
Que provoca amargor no coração
Autoflagelação

Constantemente sou condescendente
Principalmente no amor
E é essa complexidade em me impor
Que agrava ainda mais o meu estado

Estado de poesia
Pura poesia, intrínseca no ser
Fruto de meus inúmeros delírios
E enquanto a vida passa, e os fardos pesam
Sigo sofrendo meus martírios

E é sentindo o açoite que retalha
E que no meu peito entalha
As marcas do suplicio
Que aqui e agora, explicíto meu oficio

O oficio de um poeta em agonia
Que tenta transformar o sadismo da vida
Em uma vida de poesia.

Felipe Daltoé

O rubor da saudade

O êxito dos nossos desencontros
Provoca o desjejum da ausência
Que merece ficar à míngua de nós
Morrer vazia de obscenos abraços

Quanto à saudade, guarde para ela
O melhor canto da casa, da mala
Que de tão cheia de fome, avermelha
Face ao rubor da poesia que exala

Já sobre o amor sem escudos
Um pouco de suspiro cheira bem
No corpo que esconde no escuro
A ânsia pelo tempo de alguém

Ana Oliveira

Crônica no vaso

         Seis e quarenta da manhã, já estava acordada há alguns minutos, mas, como de costume, esperei até meu pai abrir a porta do quarto com o intuito de interromper meu sono com o feixe de luz branca que vinha da cozinha e mirava na minha cara. Assim o fez.
Levantei meio indisposta, vesti o primeiro moletom que o guarda-roupa me deu e saí para começar mais um dia. Ou quase isso.

            Ao sair pela porta dos fundos encontrei meu gato que, interesseiramente, veio me roçar as pernas. Dei atenção pra ele, ninguém mesmo resiste àqueles olhinhos arregalados com fundo amarelo. Tomei o cuidado de não perder a hora, pois, infelizmente, ainda vivo em uma sociedade exterminadora de sonhos – literalmente – já que sempre desconfiei que o melhor horário para dormir fosse das cinco da manhã em diante… Mas, após os sonhos interrompidos pelo brilho de mais um dia atarefado, seguimos.

            Vou até o banheiro. Meu gato me rodeia. Com o rabo erguido e o passo acelerado para me acompanhar. Chegamos ao banheiro, me olhei no espelho e pensei que pior do que aquilo não ficaria – me animei. O gato seguiu me adulando.

            Arredei as calças olhando de canto para o gato. Sentei no vaso e me concentrei em um canto qualquer. Eis que senti o olhar do bichano me penetrar como um laser penetra as camadas de pele em uma cirurgia. Olhei para ele, parecia fraterno.

Ele se ajeitou e impulsionou as patas traseiras pretendendo pular no meu colo, e, antes que eu pudesse reprovar a atitude do gatinho, ele já se encontrava ronronando e se aninhando nas minhas pernas despidas.

            Até então, tudo que eu havia eliminado era o que meu sistema digestório processou durante a noite, mas o “ron-ron” do meu gatinho fez eliminar toda carga de pensamentos negativos que precipitava no fundo da minha mente.

            Deus da transmutação de energia – pensei.

Mas pode ser que ele apenas tenha aprendido a disfarçar o interesse no olhar e só queria mesmo a sua ração. É justo, afinal.

            Desci-o cuidadosamente, subi as calças, dei descarga.

            Aí sim, saí para começar mais um dia.

Bruna Alessandra Müller

Grupo de Artes e Cultura