Arquivo da Categoria: Luiz Felipe M. Santana

Sussurros engarrafados

Sobre as verdades do corpo:
Ele é rio de memórias,
Sentimentos, lembranças,
E outras histórias.

Histórias minhas e suas;
De pessoas que nunca conheci
De pessoas que pensei conhecer.

Tentei desfazer-me de tais coisas
Das posses não possessas…
Das verdades e promessas;
E lancei-as ao mar.

Como o destino de todo rio é desaguar
Lancei-as a ti
Ou a quem mais encontrar.

Luiz Felipe M. Santana

Ler e escrever

A vida é um aprendizado
Um doce e amargo aprendizado…

Só aprendemos a ler
A partir de quando sabemos escrever.

Escrevemos a partir de nossas experiências;
Escrevemos nossas decisões
Baseado na escolha que não se passou a borracha.

Escrever se torna um habito
Tanto os bons quantos os maus hábitos…

De tanto que escrevemos aprendemos a ler;
Aprendemos a ler o mundo e as situações em nossa volta;
Eu pretendo continuar escrevendo…
E você?

Luiz Felipe M. Santana

A ordem sexta

o o metal
Da lâmina amolada.

Arma de porte contínuo
De uso irrecusável
Tanto para ataque
Quanto pra defesa.

Às vezes de uso desvairado
Com cortes irregulares
Quando empunhada por um homem vendado
Que desfere golpes aos ares.

É evidente
E mais do que inegável
Que em uma mesma proporção
Eu tenha a boca manchada de sangue
Tanto quanto minhas mãos.

Luiz Felipe M. Santana

A arte do contentamento

Supri-me da breve realização
De coisas simples e pequenas
Que passam por meus olhos
Outrora na imaginação ingênua
E tornam-se canções a véspera
Da chegada em meus ouvidos.

Supri-me por um breve momento
De todo desapego;
Rejeição de idéias tiranas
Enganadoras e dominadoras
Vistas em todo momento:
O Falso Imperar.

Supri-me de gratidão
Em tocar o universo com as mãos
Sentir o vento soprar no rosto
E ser reverente de baixo do sol.

Ainda sou necessitado em parte
Espero nunca suprir-me da curiosidade
E o que aprendi empiricamente
É que não preciso de felicidade
Pra me manter contente.

Luiz Felipe M. Santana

Árvore ou semente

Não me traga salgueiros
Carvalhos ou gotas de orvalho
Traga-me jovens sementes
Por não estarem enraizadas
Não anseiam o veneno do solo.

Expostas a liberdade
Não parecem ter grande progresso
Ao invés do retrocesso
Em seu aparente repouso
Abalam as estruturas do mundo.

Crescem grandes em mente
Está livre, pequena semente
Pra germinar onde bem entender
Até mesmo na terra atraente
Onde altas arvores tombam
Perante o entardecer.

Luiz Felipe M. Santana

Herança

Sobre as masmorras do medo:
Elas estão cheias de gente
E os açoites da desesperança
Marcam alguns por toda vida.

Construídas sobre pesares no pensar,
No agir, sorrir, amar
Sustentadas pela insegurança
Que cresce nos muros como uma flor púrpura;

Nas rubras paredes abrasadas
Que condensam incessantes lágrimas
Tão firmes quanto as que mantêm nos olhos
Seria esta a única herança compartilhada?

Cada um mantém a chave da própria cela
E se nos recusarmos a sair dela
Nunca saberemos que libertos
Algo melhor está à nossa espera.

Luiz Felipe M. Santana

A Menina Vida

A vida é uma menina de olhos claros
Do mais tênue tom de azul
Que brinca no balanço da incerteza
Oscilando entre altos e baixos.

Descalça, anda sobre a grama molhada
Do mais vivo tom de verde
Que cresce com o sopro do tempo
Sendo base interpretativa.

Brinca, sobe na árvore
A mesma que segura o balanço
Enraizada na terra onde cresce a grama
Ela admira o lento mergulho do sol no horizonte.

E antes da noite chegar
Toma fôlego pra voltar
Pula, suspensa no ar
Dá liberdade aos seus cabelos dourados
Pra voar uma última vez antes do sol voltar a raiar.

Luiz Felipe M. Santana

Dualidade Espelho-Janela

Pensei em pular a janela
Quando me vi refletir no espelho
Sondar em busca do que não conheço
E daquilo que pensei ter conhecimento.

Nadei em águas rasas cristalinas
Em mares profundos e turvos
Por ter pulado a janela
Ou por ter visto o meu reflexo.

E dessas escolhas não faço arrependimentos
Se permaneci ou não por certo tempo
Do lado de lá da janela
Ou do lado de cá do espelho.

Luiz Felipe M. Santana

Transcendência

Acordei em uma sublime realidade
E procurei em minha volta
Vi poesia, vi verdades
Estava em uma praia infinita
Longe da fauna e flora urbana.

Fiz morada na calmaria
Dei um descanso aos meus ouvidos
E uma tarefa aos meus pés aflitos
Usei do embalo do vento
Pra dançar com a areia salubre.

Em meio ao exímio exílio
Esculpi o desejo no meu corpo
Algo negligenciado há tempos
E parti em uma incerta jornada
Buscando transcender da incapacidade de amar.

Luiz Felipe M. Santana

Não vendo espelhos

Não venho fazer propagandas
Apenas dizer as verdades
Que dispensa as vaidades
Que está sujeito esse mundo.

Malvestido, um tanto imundo
É assim que me apresento
Diante de ti não trago lamentos
Mas tudo aquilo que transparecer.

Talvez ao nascer
Ou em uma empírica mudança
Nem todos, alguns só alcançam
As expectativas do seu comércio.

Por me ouvires agradeço
É tudo que posso dizer
E por não vender espelhos
Recuso comprá-los também.

Luiz Felipe M. Santana