Arquivo da Categoria: Luísa Steffens

Balança descalibrada

Balança imprecisa,
A esperança, ofuscas
Tens fama de justa
Mas te chamo indecisa

Teu assento é na alta cúpula
Vangloria-te de teus feitos
Exerces juízo sobre os outros
Mas não atentas pros teus defeitos

Proferes vacilantes sentenças
Reparas na pomposa aparência
Ingênua e vaidosa solene
Desconheces toda essência

Qual é tua medida?
Qual é teu critério?
Deveras, te importas com a verdade?
Ou basta o título do teu magistério?

Em teus discursos eloquentes,
Por que invocas a deidade?
Tu realmente a temes?
Ou exime-se da responsabilidade?

Taparam teus olhos
Que não vês toda injustiça?
Receias a retaliação dos fortes
Por isso, dois pesos e duas medidas?

Pensas estar em seguro
Acima do bem e do mal
Mas te vejo em cima do muro
Longe do imparcial

Obscureces os fatos
Guardas uma só versão
Respalda-te na lei
De tua conveniente interpretação

Libra, libra
Lembra em todos os momentos:
A lei do homem regula sobre meus atos
Jamais sobre meus pensamentos

Perecendo, o corpo, o ideal é intacto
Continua, a luta, apesar do lamento

Se não me tens nada a dizer
Permanece em silêncio
Já foste desmascarada
Balança descalibrada

Luísa Steffens

Cigana devoção

A alma bailando em chamas
O corpo movido a versos
No peito rubores rítmicos
Beleza e paixão emersos

Movimentos em liberdade
Belas vestes esvoaçantes
Ao som da prosperidade
Moedas cintilantes

Rosa vermelha em deslumbre
Cabelos negros ao vento
A cabeça erguida enseja
O fatal empoderamento

O bater dos pés descalços
À terra, clama firmeza
O elevar das mãos ao alto
Saudações à natureza

Entre palmas e ralhos agudos
Entoam-se pandeiros e violinos
Sob a luz da fogueira flamejante
Um exuberante colorido

No rodopiar incansável
Giram lenços e pedras atrelados
Misturam-se ao som do batuque
De um coração desordenado

Com devoção, a cigana celebra
O inefável vigor feminino
Faz, da dança, fervorosa oração
Harmonizando corpo, alma e sentidos
Numa sublime e mística comunhão

Luísa Steffens