Arquivo da Categoria: Guiomar Baccin

Arriscado sempre é…

Não me importo com ditados.
Eu quero é ter história pra contar.
Apesar de tudo isso acontecendo,
Em todas as partes do planeta,
Eu ainda tenho esperança.
Como um passarinho que espera pela comida
Que a mãe foi buscar.

Afinal, é preciso.
Cantar,
Sonhar.

Não queiram que eu viva no escuro.
Deixem minha luz brilhar.
Vamos dar as mãos,
E começar a andar.

Guiomar Baccin

Quartos de pensão

Os cabelos sempre meio ensebados,
bastante amontoados.
Quem sabe nos sapatos existe um laço…
Camiseta preta, bem desbotada.
O amanhecer, como sempre,
um percalço.

A teoria mal feita,
o conteúdo mal explicado.
Horas a fio, de conversa fiada.
Mistificando a ciência,
tentando cientificar o mito.

Uns usam bombas atômicas,
outros usam poemas.
Quando não se usa algum método
se usa o senso comum.
Que ainda assim é algum tipo de método.

Tentamos transmutar
para outra dimensão
pois essa realidade
parece não ter explicação.

Guiomar Baccin

Esperança

Escrevo em um papel reciclado
e com o coração partido
Não por falta de opção
ou por um amor não correspondido…

Escrevo aqui por escolha,
para tentar entender tantas despedidas.
Enquanto amasso outra folha,
e fico com as mãos estendidas.

Até onde vamos com nossa vaidade?
Apenas ficaremos acordados até tarde.
O ódio leva à prisão.
O não entendimento, à contradição.

Dos grandes feitos
resta-nos as lembranças.
É preciso seguir em frente,
E nunca perder as esperanças.

Guiomar Baccin

Obras de arte

Apesar de algumas obras de arte transcenderem o próprio tempo,
O artista nunca é anacrônico.
Pinta, escreve e faz no seu próprio tempo.

E certa “moralidade” está sempre presente.
Quando quer construir e
quando quer destruir.

O pintor medíocre pinta qualquer coisa.
O escritor medíocre escreve qualquer coisa.
E o espectador medíocre aceita qualquer coisa.

Onde tudo é arte,
a sociedade é decadente.

Com pensamentos e sentimentos aprofundados
não perdemos nada.
Apenas ganhamos obras de arte qualificadas.

O caminho à iluminação nunca é solitário.
Sempre há um companheiro.
Um livro, um disco, um sorriso.

O caminho pode-lhe ser mostrado.
Mas é sempre você que terá que caminhar.

Guiomar Baccin

Para minha tristeza

Deixe-me em paz neste inverno;
Oh, dor viva do desencanto de um coração.
Não te quero em minhas cobertas
Nem quero mais lhe dar atenção.Um versinho para você;
Pois prometeu voltar.
Entregar-lhe-ei esta poesia em mãos.
Porém, não insista em me olhar.

Tenho agora outros planos.
Nunca mais irei te amar
Oh, minha tristeza;
Vá. Vá agora, para nunca mais voltar.

Confesso-lhe a verdade:
Deixei meu coração aberto.
Troquei-lhe por outro alguém.
Tenho agora, meu amor liberto.

Aceite esta singela homenagem.
Pois tu também não me amas mais.
Eu sei.
Mas, se isto te conforta,
Saiba que os momentos que juntos passamos,
Eu jamais esquecerei.

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Poesia publicada no livro “Vem comigo; depois te explico” em Junho de 2007 pela editora LEW

Guiomar Baccin

Não espere o ano novo

Se você tem algum plano e disse para você mesmo “Dessa vez vai, começo no dia 1° de Janeiro”, eu sinto muito em lhe dizer isso, mas você irá desapontar você mesmo!

Se tem algo que você queira fazer, comece agora – nesse exato momento. Nem que seja o planejamento, mas comece!
Não se preocupem, muitas pessoas caem nessa armadilha de “ano novo”. Eu mesmo já me frustrei várias vezes com isso.

O que acontece é que, inconscientemente, achamos que a virada de ano tem o poder mágico de fechar uma porta e abrir outra.

Não tem.

Geralmente, o dia primeiro de janeiro é muito parecido com o trinta e um de dezembro.

Temos a chance de começar ou recomeçar o que quisermos a cada nascer do sol, a cada pôr do sol – por que não?
Seja o que for que você tem em mente, faça.

Não espere o ano novo.

Guiomar Baccin

A realidade que cria a consciência

Deveria ser ao contrário.
Elevar a consciência e assim criar a realidade.
Alguns conseguem chegar a isso, mas são poucos.
A realidade acaba sendo mais difícil do que pensa a consciência.

A sua realidade depende de você,
mas a realidade do outro depende do outro.
E se a sua realidade e a realidade do outro
são diferentes, qual realidade se sobrepõe?

Os interesses divergem,
conflitam.
Não há acordo. Não há consenso.
Não é possível criar uma realidade boa para todos
porque nem todos querem isso.

Se cada um cria sua realidade
e cada um tem um interesse diferente,
o caos é o resultado.

Imaginem se tivéssemos os mesmos interesses…
Imaginem, apenas por um momento, se todos nós desejássemos o bem.
Condições igualitárias. Momentos de liberdade.
Sem exploração, sem escravidão. Sem perda de tempo pra nação.

Mas cada um sabe o que quer.
Se esforçam para isso.
Sem perceber que não é isso o que precisam.

Guiomar Baccin

Meio poesia*

Hoje eu acordei meio poesia,
tomei um café meio caminhada,
passei um pouco de margarina de energia no pão da vontade
e mordi como o leão morde a zebra.

Saí da minha casa meio montanha,
tomei a rua com jeito de trilha,
passei pelo centro, um pouco burguês, mas meio favela
e fui até a praça com jeito de praia.

Na praça havia uma estátua meio parada,
uma calçada meio pisada,
algumas árvores meio verdes
e algumas pessoas meio sofridas.

Chorei a seco, depois engoli o choro.
A vida precisa seguir,
nem que seja pelo caminho meio torto.
Um dia se chega a algum lugar
nem que seja meio morto.

Guiomar Baccin

*poema vencedor do Concurso Nacional Novos Poetas, Prêmio Poesia Livre 2015
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