Arquivo da Categoria: Felipe Daltoé

Universo onírico

A vida é feita de sonhos
E, entremeio a devaneios,
Anseio tristonho
E espero enfadonho, que chegue a minha vez

Pode até parecer insensatez
Mas mesmo com a escassez de chances que tenho
Persisto ferrenho
Buscando a realização dos sonhos que sonho acordado

E quando acordo pra realidade, abalado
Quero voltar pro meu universo onírico
E sair desse mundo satírico
Que insiste em me puxar pra baixo

Mas quando tento voar bem alto
Sinto correntes que me prendem os pés, e me sinto ao revés
E os elos dessa corrente, alternadamente vão ficando mais fortes
E eu, sem um pingo de sorte,
Tento libertar-me para seguir meu norte

Aliás, norte ou sul, leste ou oeste, tanto faz
Pois a vida é fugaz
E nem todo o nosso esforço é ineficaz
Então sejamos audazes
Para que não nos tornemos incapazes
De realizar o que almejamos

E aquilo que almejo
É bem mais que desejo
É minha sina
E vejo um lampejo desse sonho em cada esquina

O sonho de não depender
De nem um, nem dez, nem cem para completar meu ser
E de me livrar dos grilhões da submissão
E das correntes que prendem meus pés no chão

Cada elo da corrente é um problema a ser superado
Viver só pra trabalhar e pagar as contas
E mesmo assim terminar em bancarrota?
Parece que estou vivendo no dia da marmota

Sempre na mesma rotina
E com a dor, já inquilina
No peito, desfeito
Quase que minha esperança declina
Mas não me deixo abater
Pois sei que as pancadas que a vida me dá só vão me fortalecer

Parece que estou cumprindo pena, e sem piedade
Enquanto os que nascem em berços de ouro gozam de sua liberdade e do seu capital
Eu aqui nessa cela infernal

Mas chega, agora é hora da verdade!
Chegou a hora de transpor a realidade
E sair dessa cela pela porta da frente
E gritar a plenos pulmões
Que sou fruto de minhas emoções

É hora de chutar o balde
E de seguir sendo lírico
É hora de trocar a realidade
E transformar a vida real
Em meu universo onírico.

Felipe Daltoé

Estradas da vida e vida na estrada

A vida é uma eterna estrada a ser percorrida
Um caminho sem volta
De experiências desconhecidas

Para a grande maioria
O trajeto se segue sem atalhos
E é só com árduo trabalho
Que a estrada aos poucos se constrói

Enquanto o cansaço corrói
E as forças vão se perdendo
É nas dificuldades que seguimos crescendo
E é errando que aprendo

Aprendo e evoluo nessas andanças
Sem pestanejar e nem perder as esperanças
Tento permanecer inabalável, intacto a mudanças
Porque depois da tempestade vem a bonança

Seja na carona ou na direção
Pra frente ou na contra mão
A pé ou de carrão
Os caminhos sempre se cruzam
E no decurso de segundos
Acidentes de percurso
Batidas sentimentais
Acidentes emocionais

Muitos vivem nas costas de outros
Por preguiça, maldade, ou até por falta de ação
Como quem pula a catraca ao subir no busão
Ou como quem fura a fila do caixa
Ultrapassagem fora da faixa

Em alguns momentos do trajeto
Podemos até estacionar?
Quando não sabemos quando, como e onde se quer chegar
Ou quando nos vemos com problemas nas engrenagens
Com problemas externos e internos que dificultam nossa viagem
E para dar a partida de novo
Podemos depender de outros
Ou também, consertar-nos sem ajuda, autônomos
Mas com ferramentas escassas e o cansaço do caminho
É difícil fazer tudo sozinho

Mas são poucas as vezes na vida
Em que não temos um amigo por perto
Mas um amigo verdadeiro é raro

Aquele amigo e passageiro
Que nos ajuda a empurrar o carro
E nos põe de volta a rodar em paz
Deixando todos os problemas pra trás

Então, na vida, temos de ser um pouco de tudo
Motoristas, mecânicos e passageiros
Construtores, soldadores e mochileiros
Nas caronas que a vida nos dá
Mas o mais importante de tudo
É sempre manter essas amizades que renovam nosso ar
Que nos causam bem-estar
Pois de que adianta a estrada toda
Sem ninguém pra compartilhar?

A vida na estrada
E as estradas da vida
As amizades e o tempo
Curam qualquer ferida.

Felipe Daltoé

Anatomia da melancolia

Olhos
Ouvidos
Boca
Respiração
Sou todo emoção

Fígado forte
Lágrimas
Fumaça no pulmão
Sou todo coração

Tendões
Músculos
Movimento
Sou todo sentimento

Cérebro
Pele
Batimentos
Sou todo sofrimento

Um conjunto de ligamentos
Que dão-me movimentos
E os ferimentos do cotidiano
Só me tornam mais humano

E os meus cinco sentidos
Que completamente enlouquecem
Quando em meu ambiente
Você aparece

O cheiro suave do perfume que me adentra as narinas
O seu olhar cativante que me fascina
A sua voz, que me amolece igual morfina
O gosto dos seus lábios nos meus, menina
E minhas mãos que tateiam seu corpo macio, quase ébrio, em que vicio

O corpo fala
E entre gritos e sussurros
Me encontro em cima do muro, inseguro
Entre o abismo da melancolia
E o abismo do amor puro

Mas sou uma pessoa de extremos em constante alteração
E em questão de minutos
Sem escolher o lado, posso dar de cara com o chão
Um bipolarismo misturado com indecisão

E é essa necessidade gritante de expressar minhas estranhezas
Que me deixa na vida com mais uma certeza
A de que a poesia é parte intrínseca da minha pessoa
E isso não é à toa

Cada verso é anatomicamente encaixado, vinculado
A organização em um desorganizado
Poesia visceral, e vital para se viver
Como se meu sangue fosse a tinta
Pro meu vício de escrever

Dores peitorais
Tinta/sangue
Libido
Sou todo coração partido.

Felipe Daltoé

Selva de pedra

Muros de concreto
Hipocrisia a céu aberto
Prédios com espaço e vagas
Mas mesmo assim, muitos indigentes dormem nas calçadas

Falta solidariedade
Hospitalidade? Só para o rico
Que permanece impudico
Mesmo frente ao público
Sem nem ao menos entrar em pânico

Punição para quem rouba pão
E pra corrupção?
Ah, absolvição
Resolveremos isso na próxima sessão

Enquanto os carros pernoitam em estacionamentos fechados
O mendigo, amigo, está com os dias contados
Passando frio, fome
Acho que ele sequer lembra do próprio nome

Sociedade selvática, fanática, problemática
Que quando não nos trata como invisíveis
Nos trata como animais, irreais

E enquanto os “meritocratas”
Vivem no luxo de suas cidadelas
O povo pobre monta seus barracos
Nas favelas

Feliz daquele que ao menos tem um teto
E não é mais uma mescla de carne/concreto
Sendo pisoteado por algum imundo
Que ainda tem a audácia de dizer
“Vai trabalhar, vagabundo!”

E numa tentativa frívola de subjugar-nos ao sistema
As proibições são extremas
E na cabeça dos abastados
Só palpita um dilema
Escravidão ou algema?

No comando de déspotas autoritários
Com comportamentos arbitrários
E gestos temerários
Vivemos em um país totalitário

Onde tudo gira em torno do capital
Onde o amor pelo dinheiro tornou-se incondicional
Muitas formas de conseguir essa grana são imorais, inconstitucionais
E a riqueza está detida nas mãos de poucos
Que operam por debaixo dos panos
Deixando-nos apenas com os sonhos

Enquanto isso a revolução vagarosamente dá seus passos
Na busca por reaver os espaços
Que são nossos por direito
E que nos são tirados por algum eleito

Mas a esperança ainda bate no peito
E nesse mundo não há um sujeito
Que nos faça baixar a cabeça
Não se esqueça

Que não há sequer um maldito sujeito
Que nos desvie da nossa conduta
De almas que clamam mudança
De corações que clamam por luta.

Felipe Daltoé

Masoquismo sentimental

A dor que clama
O peito que arde em chamas
As unhas que me arrancam a carne, rasgando-me por dentro
E o sangue que jorra
Como um mar de sofrimento

Os gritos de lamúria
E os tapas da vida, cheios de fúria
Mas que também trazem prazer
Será mesmo que após tantas pancadas
Passei a gostar de sofrer?

Aprendi a apreciar a melancolia
Com a decepção nossa de cada dia
Vivendo com a solidão em demasia
Como um vício inerente

Um veemente tipo de dor
Recorrente desamor
Que provoca amargor no coração
Autoflagelação

Constantemente sou condescendente
Principalmente no amor
E é essa complexidade em me impor
Que agrava ainda mais o meu estado

Estado de poesia
Pura poesia, intrínseca no ser
Fruto de meus inúmeros delírios
E enquanto a vida passa, e os fardos pesam
Sigo sofrendo meus martírios

E é sentindo o açoite que retalha
E que no meu peito entalha
As marcas do suplicio
Que aqui e agora, explicíto meu oficio

O oficio de um poeta em agonia
Que tenta transformar o sadismo da vida
Em uma vida de poesia.

Felipe Daltoé

Sementes de angústia

No solo infértil do meu coração
Plantava esperanças e sonhos
Mas nada florescia
Fosse com música, fosse com poesia

Um solo fraco
Regado a álcool
Que sem ver a luz do dia
Estava angustiado e sem energia

Sem recurso nem cuidado
O capim crescia para todo lado
Mesmo desacreditado e sem um pingo de sorte
Ia à procura da semente mais forte

Plantei a semente do amor
E a cuidei noite e dia
E mal acreditava
Quando aos poucos ela crescia

Ao vê-la tomando conta do jardim
Enfim podia me orgulhar
Contemplar sua beleza
Me causava bem estar

Mas da noite pro dia
Acordei com uma surpresa
Vendo a flor arrancada
E pisoteada a sua pureza

E cheio de pesar
Vejo-me novamente rodeado por capim
Pois se colhe o que se planta
E só vejo dor nesse jardim

Felipe Daltoé

Transfusão de poesia

Elas vem, elas vão
Levando consigo pedaços de um coração
Elas entram, elas saem, é assim que é
Mas nem ficam tempo suficiente para tomar um café

Elas vem, nuas e cruas
Cheias de amor, levam-me para a lua
Pra depois me regurgitarem em um canto qualquer da rua

Elas vem, abrem a porta
Deixam meu coração frio como o inverno
Só para então, um tempo depois, transformarem a minha vida em um inferno

A melancolia, companheira fiel
E o sangue da poesia que derramo no papel
Descrevem meus dias com exatidão…
Lagrimas e escritos esparramados pelo chão

Pedaços de mim espalhados
Como um quebra-cabeça faltando uma peça
Buscando encaixar-se

Mas o encaixe, por mais que não pareça
Está dentro de nossas próprias cabeças
Não está em ninguém mais
Como saberás reconhecer o amor em outro
Se nem teu próprio amor te satisfaz?

Preencho o lugar da peça sobressalente
Com substâncias entorpecentes
Sinto-me fraco, sinto-me mal, desmaio
Estou a caminho do hospital

Chegando lá, ouço aquela gritaria
“Doutor, doutor, está sendo chamado na sala de cirurgia”

“É, é um caso grave, quem diria, esse aqui precisa urgente de um coração novo e uma transfusão de poesia”.

“E sem anestesia”.

Felipe Daltoé

Eterno

Pensamento distante
Coração pulsante
Ando fora do trilho
Sou apenas um andarilho

Sem mente
Sem alma
Corpo vazio
Sinto-me com frio

Esse devaneio me enlouquece
O álcool, por dentro me aquece
Meus sentimentos se esgotam
Mas, em seu lugar, outros brotam

Eu sinto dor
Eu vivo a dor
Não vejo cor
Não me resta amor

Esse longínquo luar
Farei das estrelas meu humilde teto
Enquanto a dor despedaça
Meu coração de concreto

Surgi em segundos
E tão logo sumirei
Vou me misturar ao vento
E disso então esquecer-me-ei

Estou tão alto quanto o céu
E tão baixo quanto o inferno
Não há vida e nem há morte
Serei eterno

Felipe Daltoé

Legião dos corações partidos

Nossa legião se expande
Mas ainda somos oprimidos
Cada dia outro se junta
À legião dos corações partidos

Esse grupo vem crescendo
Desde mil anos ou mais
Todas essas pobres pessoas
Foram deixadas para trás

Largadas nas valas fétidas da solidão
Sem um motivo
Sem uma razão
Apenas um vazio

Falsa esperança
Sentimento de mudança
“Com ela será diferente” diz ele
Ah, pobre homem iludido

Saia desse ciclo
Serás sempre um sonhador
Não existe mais remédio
Que cure essa sua dor

Nossos corpos putrefatos
De tanto esperar mudança
Valas cheias de sonhadores
Sem mais um lapso de esperança

Olhem só
Mais um que vem chegando
Não chores meu bom homem
Venha, vamos entrando
Tem um lugar na vala
Reservado pra você

Felipe Daltoé

Plenitude

Meu bem
Quem vem, desce do céu
Voa ao léu
E subitamente some

Deixa no ar, aquela impressão
Aquela direção
Que me faz andar infinitamente a tua procura
Mas sem êxito

Sigo seu rastro
Agarro-me no mastro
Subo até o topo, sinto aqueles ares
Procuro uma molécula sua
Na vasta imensidão dos sete mares

Mergulho nas nuvens
Voo nos mares
Faço o impossível
Sou imprevisível

Apenas tu
Lê minha face
Sabe o que penso, o que faço
Entra na minha mente
E desvenda o próximo passo

Faz-me ciúme
Pra dizer que me ama
Me usa me ilude
Tira-me meu sentimento
Em sua plenitude.

Felipe Daltoé