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Verdadeira Verdade

            Eu sei como as coisas funcionam. O mundo trabalha pelo princípio da negação. Quando te aparece uma oportunidade, recuse. É a negação. Você se torna superior a ela e conseqüentemente uma melhor vai aparecer. Quem vive de oportunidades pequenas morre assim. Não é uma simples questão de arriscar as coisas, se você pretende alguma coisa, negue tudo até conseguir o pretendido!
            E com as mulheres não é diferente. Mulher pensa pelo principio de negação. Por isso que tanta gente se confunde e diz que mulher gosta de apanhar, eu discordo. É só o principio da negação em ação. Estou melhorando, as oportunidades estão aparecendo, já recusei a Betty Tomatodas, XeylaXupisco, Camila Cincopila e o Ricardo. Quando recusei o Ricardo fiquei realmente empolgado. Gay é seletivo. Pensei “tenho chances, algo grande vai acontecer.”
            Continuo na espera. Há dois anos.
 
Por: Roberto.

Parque


Qual a definição de metrópole? Lugar de aglomeração de importantes e respeitáveis cidadãos? Ambiente habitado por população excedente de seres humanos numa região diminuta e poluída? Local com a presença de altas construções que beiram o inimaginável? Espaço para exploração da condição humana? Uma metrópole parece, em resumo, território de indiferença, irresponsabilidade, egocentrismo e preguiça.
            Dois amantes muito parecidos são alvejados por olhares furtivos nas voltas de um parque logo ao anoitecer. O desprezo vence a apatia. Olham todos, muitos, recalcados fuzilando o espírito livre de seres amantes. De mãos dadas seguem dois rapazes trocando carícias pela ruela do parque de preservação da flora e fauna local a muito esmagada pelos anos do progresso. Um lugar de contraste e fúria.
            Passam os dois rapazes amantes de mãos dadas ao lado de um jovem maltrapilho deitado com as voltas das costelas a mostra para a lua, única a se importar. E os demais olham a cena bizarra: dois homens feitos, barbados, de mãos dadas, compartilhando afagos.
            Comentários sorrateiros entre os transeuntes ofendidos. Imagens criativas de pernas peludas se tocando endossam a maldade das falas. Um absurdo! Um ultraje. Está cada vez mais frequente encontrar tais subversores da moral andando livres e faceiros nessas bandas. Não há mais lugares para reunir a família nessa cidade. Uma pessoa muito bem resolvida com seu preconceito observa risonha tudo acontecer. Ela sente pena do casal. Mas não muita, pois pouco se importa. No fundo nada importa muito.
            Outro casal contraventor aparece confirmando algumas indignações. Eram agora quatro homens rindo sob um poste baixo, velho, sujo, enferrujado, abandonado de luz amarela. Os homens amarelados parecem se divertir para tristeza da nação. E todos percebem, falando pouco e pensando em demasia a esse respeito. O engraçado é que um menino, jovem, de olhar envelhecido e alma aleijada de fome não vê o estranho no casal. Talvez isso não seja nada ele também parece não ser visto.  

O choro do pássaro


 Após sua passagem pelas quedas de água da fúria algo acendeu em seu intimo. Passou a viajar com o espirito acesso de serenidade. Um contraste aguçado pelo vento forte lhe soprando as vestes. Andou algumas horas sem rumo exato. Sobreviveria facilmente naquele lugar uma vida inteira se assim desejasse, era farto e fértil. Suas habilidades de caça lhe dariam recursos além do necessário.
O sol ainda alto lhe batia à face esquerda ofuscando parte de sua visão quando ouviu ao longe um som estranho. Jamais ouvira nada parecido. O gemido lembrava o choro de um pássaro grande numa melodia fora do comum. O volume intenso intercalava-se com pequenos silêncios rápidos, formando algo tão lindo quando a cantiga dos antigos que ouvia em sua terra natal. Aproximou-se curioso. Nunca havia ouvido um som tão esplendoroso e ritmado na vida. A musica dos antigos era triste e marcial, envolvida em cerimônias lentas e veneráveis. Esta era rápida e alegre.
Então incontáveis baques surdos romperam ao chão. Os choques seguiam a musica do choro do pássaro. Ainda não conseguia ver, pois tudo estava dentro de uma mata ao lado da estrada. Esqueceu da estrada, da cachoeira, dos campos tristes do sol, de sua jornada e ficou encantado enquanto ouvia a mais bela sinfonia existente.
Parou de solavanco junto do silêncio. Tudo emudecera e ele ficou afoito por saber qual a origem da melodia agora morta. Ao dar seu primeiro passo decidido em investigar a situação, o som retornou envolvente. Várias palmas marcaram um ritmo frenético que recomeçara. E o pássaro que gemia e chorava para alegria dos demais estava agora furioso em seu canto. Piava agudo trocando a intensidade do som rapidamente, acompanhado pelas palmas frenéticas de umas dez pessoas. Já podia ouvir risos e conversas. Apurou o passo puxado pela música e pela curiosidade. O sol novamente encheu sua vista quando saiu numa clareira larga onde muitas pessoas dançavam e bebiam.
Deitado confortável em almofadas postas a beira de um grande barril, com roupas extravagantes num tom verde musgo um homem magro e narigudo apertava e beijava um pedaço roliço de madeira com alguns furos produzindo o gemido do pássaro e as pessoas a sua volta riam e bebiam animadas. Não eram muitas e não pareciam preocupar-se com os perigos da floresta ou do mundo.
A melodia um pouco mais calma tranquilizou seu espirito. O senhor narigudo tinha longos cabelos brancos e falava através da madeira que beijava diretamente à alma dos presentes.
Observou atento os movimentos dos dedos do homem. E sentou-se para descansar ao seu lado quando novamente a música acelerou e ele foi arrastado para o meio dos demais. Uma mulher estranha lhe agarrou pelo braço e jogou-o rodopiando para o centro da roda. A musica preenchia de sentido e significado algo que pareceria loucura para qualquer um. Homens e mulheres girava e pulavam, balançavam os braços acenando e rindo. Ele apenas deixou-se levar. Esteve livre por alguns instantes, livre em seu interior profundo. Mesmo sendo controlado pelos dedos do homem deitado, aquela sequencia de fatos o deixou feliz, aliviado e livre.
Saiu da roda de dança tonto e caiu ao pé de uma arvore. Dormiu feliz sem mesmo dizer palavra a nenhum presente. E sonhou coisas belas em seu leito de madeira e grama tão confortável quanto os aposentos de qualquer rei. 

O Riacho das Almas Iguais


Acabei de escrever mais um pedaço dos contos que postei aqui há alguns dias. Apesar de essa não ser sequência do que foi postado, acredito que ficou interessante. Adaptei um outro texto que já tinha escrito e achei bom =D Ainda nem revisei, fiquei ancioso pra postar! Quem sabe tenha algum erro ainda e provável que mude algumas coisas. De qualquer maneira fica ai pra vocês darem suas opiniões. A história tem míseras 10 páginas, gostaria de escrevê-la com mais frequencia mas ando cmo um pouco de receio de estragá-la. Vai indo assim por enquanto. Em breve usarei minhas ultimas referências nela e posto aqui as novidades. Espero que gostem! Abraço.
           Sem descanso partiu daquela terra sofrida. Carregando uma ponta de suas desgraças. Lavou-se no córrego, mas a lama interior não o abandonaria. Rumou com a estrada sem destino certeiro. Voltou a acompanhar o curso do rio o peso amargo de sua consciência não o deixou ver o sol novamente naquele lugar. Partiu com remorso e vergonha do acontecido àquela terra.
Solitário avança sobre a escuridão da madrugada. Anda em noites comuns carregando certo aspecto épico de fim dos tempos. Preparado para dar o ultimo passo a cada instante. Levanta o queixo altivo, fixando os olhos no horizonte escuro, ouvindo o zumbir distante da vida se rastejando a produzir um tom salgado, severo e profundo muito repetitivo. O retumbar da existência num eco seco, constante, irritadiço rasgando a sanidade de qualquer frade.
Desejou lembrar uma primavera há muito perdida. Algo infantil enterrado por anos compridos. Uma leve paz de espírito lhe acometeu, nada além. Essa era a impressão que restara da infância. Uma paz de espírito. Alguns desejos repetidos. Uma musica boba. Um inverno perdida.
Leva-o, o ar, a benção da noite fria acalmando seus músculos e o toque triste da esperança. Também nesse ar há presença do medo cravado na incerteza. Toda raça teme o incerto do crepúsculo e espalha na noite esse medo inconsciente aromatizando o vento. “Ventos que cheiram medo”, pensa. Segue o rastro desses, pois tenciona conhecer os medos todos. Deseja, do fundo d’alma, temer também, pois desde sempre não conhece tal sentimento.
Enfrentou o vento. Varava-o altivo em busca de algo a temer. Cruzava terras hostis sem destino, cuidado e nome. Jamais homem qualquer pôs nele vestígio de medo, seja Deus ou mortal.
Em seu intimo cultiva um poder tão natural quanto a força nos braços ou a pele na cara. Ainda jovem sabia dessa habilidade, dessa possibilidade de fazer tudo. Dessa ultra potência caótica. Sentia-se essencialmente infinito entrelaçado num gigantesco presente enraizado e vistoso. Assim conhecia o tempo, tirânico em suas decisões e infinito nas possibilidades. Era eterno.
Pouca ou nenhuma obrigação conheceu. Esmagou os interditos. Atropelou os recalques. Sobrepôs toda moral. Transcendeu a simples e banal consciência humana. Esse era seu triunfo não planejado.
Ladeou o córrego acompanhando seus sussurros. Sussurro desparelho crescendo incomodamente. Essas águas conhecem sangue. Deve ser o sarcófago ingrato de heróis ou vilões de batalhas. Elas não segregam mercenários ou paladinos, abrigam almas e decompõem corpos justamente, o rio das almas iguais. Conhecia aos poucos um mundo vil e com força com força o odiava.
Há certo ponto a correnteza avolumou debatendo e saltando por sobre pedras inconvenientes. Saliências ganharam vida. Entrou novamente na água. Uma força indiferente o abateu, em profundidade rasa molhou as pernas e a água reclamou seu espaço lhe empurrando para fora. Retomou seu caminho confuso até encontrar, já com amanhã alta, uma queda alta. Contornou-a por uma trilha ruim e desceu cerca de dez metros onde outra batalha se abatia. As rochas cinzentas apanhavam das gotas com uma fúria invejosa.
Às margens campos e mata rasteira. Uma névoa agitada umedecia sua lamina branca e todo seu corpo. A natureza se agigantava exibindo sua potência e beleza. O ambiente sugeria a imaginação das voltas das águas nas pedras e impunha respeito. Ali teve seu primeiro contato com o medo. Soube, com certeza absoluta, jamais teria ímpeto, energia, sagacidade, potência ou qualquer tipo de força física, psíquica ou sobrenatural para fazer face à essa força natural. Tão simplória e descomunal. Considerou quantas mais cachoeiras existiriam, e essa, com apenas alguns metros com tal imponência. Excitou-se por sua impotência e por ali conhecer, parado ante a minúsculas gotas em queda, o significado do medo, procurado por tantos anos.
Adentrou a água. Juntou sua vontade, excitação e coragem e foi. Quem sabe seu destino não seja o mundo dos homens insignificantes e sim este. Violou a serenidade dos campos da beira. E com muita dificuldade atingiu um ponto de quebra. Sua admiração o levou a buscar harmonia, mas impossível foi tal feito. Uma ardência lhe correu o sangue, a adrenalina lhe ganhou o cérebro. Êxtase sentiu ao ser empurrado, bombardeado fortemente por pequenas porções de água. Sacou a lâmina, arreganhou os dentes, franziu o cenho e grunhiu em fúria inserindo seu gemido gutural ao constante som irritadiço do rio das almas iguais.
Aprendeu então duas coisas: o medo e a verdadeira fúria. A fúria constante, implacável, monstruosa posta em cada minúscula gota. Guardou em seu intimo profundo esta fúria. Imprimindo meticulosamente em cada olhar que daria dali em diante. Soube medi-la. O medo ficou claro. Despertou-o para um estado de alerta eterno. Senti-lo-ia certamente. Pois enquanto a fúria lhe fosse visível nos olhos o medo carregava seu coração.

III Sarau Poético Cosmonautas

É com imenso prazer que o Grupo Cosmonautas anuncia o resgate, a volta dos Saraus poéticos.

A proposta é reunir pessoas interessadas em arte e cultura para trocar ideias, pensamentos e, principalmente, compartilhar seus textos, contos, músicas, desenhos e poesia.

O III Sarau Poético será realizado no dia 11 de Outubro, véspera de feriado, às 19:30H, no endereço:

Rua Austrália, n° 103E
Bairro Maria Goretti


A entrada é franca e cada participante deverá levar a bebida de sua preferência para confraternização.

Se você gosta de ler, escrever ou tem alguma contribuição intelectual para o grupo, por favor, participe, contamos com sua presença!

Dúvidas? Pergunte nos comentários!


Poder para tudo

Posto esse conto apesar de ainda não o considerar terminado. Aceito sugestões! ^^ 

As tensas horas anteriores ao sol lembravam-no das trevas em seu passado. A luz baixa do poste decrépito lavava seu rosto de um amarelo assombroso. Olha direto para o ponto luminoso esperando os olhos cansarem ou a luz recuar. O tímido e velho poste oferece um ultimo refúgio de luz frente o mar de negro, estendido logo a frente, até seu destino. A remota saída da cidade se apresenta e nenhum arrependimento consta no caminho.

Solitário adentra a escuridão reinante. Anda em noites comuns carregando certo aspecto épico de fim dos tempos. Preparado para dar o ultimo passo a cada instante. Levanta o queixo altivo, fixando os olhos no horizonte escuro, ouvindo o zumbir distante da vida se rastejando a produzir um tom salgado, severo e profundo muito repetitivo. O retumbar da existência num eco seco, constante, irritadiço rasgando a sanidade de qualquer frade.

Desejou lembrar uma primavera há muito perdida. Algo infantil enterrado por anos compridos. Uma leve paz de espírito lhe acometeu, nada além. Essa era a impressão que restara da infância. Uma paz de espírito. Alguns desejos repetidos. Uma musica boba. E uma primavera perdida.

Leva-o, o ar, a benção da noite fria acalmando seus músculos e o toque triste da esperança. Também nesse ar há presença do medo cravado na incerteza. Toda raça teme o incerto do crepúsculo e espalha na noite esse medo inconsciente aromatizando o vento. “Ventos que cheiram medo”, pensa. Segue o rastro desses, pois tenciona conhecer os medos todos. Desejo, do fundo d’alma, temer também, pois desde sempre não conhece tal sentimento.

Enfrentou o vento. Varava-o altivo em busca de algo a temer. Cruzava terras hostis sem destino, cuidado e nome. Jamais homem qualquer pôs nele vestígio de medo, seja Deus ou mortal.

Em seu intimo cultiva um poder tão natural quanto a força nos braços ou a pele na cara. Ainda jovem sabia dessa habilidade, dessa possibilidade de fazer tudo. Dessa ultra potência caótica. Sentia-se essencialmente infinito entrelaçado num gigantesco presente enraizado e vistoso. Assim conhecia o tempo, tirânico em suas decisões e infinito nas possibilidades. Era eterno.

Pouca ou nenhuma obrigação conheceu. Esmagou os interditos. Atropelou os recalques. Sobrepôs toda moral. Transcendeu a simples e banal consciência humana. Esse era seu triunfo não planejado.

             

Contos do Norte (Continuação)


II – O INICIO

          Vinte e três anos após o extermínio dos homens lobos, muitos ainda se recordavam com medo os tempos de terror e não com menos medo viam o futuro. Pois o mal havia despertado. As fornalhas não pararam. A desgraça na época foi vista como oportunidade por dois exércitos. Ambos ainda agora batalhavam tentando controlar o território oposto, num confronto interminável. O mundo conhecido foi dividido ao meio. Não há lugar pacifico. Milícias são instigadas para rebelião pelo exercito inimigo. Cercos são feitos cortando o comércio e suprimento de cidades. Do tormento à penúria a humanidade continuava no caminho da miséria. Há, ao oeste, um grupo de paladinos autodenominados Cavaleiros da Esperança. Esses homens montados em cavalos brancos, equipados com metais nobres, vestes resplandecentes e um detalhado código de honra, assassinaram incontáveis aldeias. Genocidas polidos têm sangue nas dobras das vestes e crueldade nas dobras do caráter.

          Nesse tempo chegou num povoado ao norte, um rapaz branco. Falava várias línguas e carregava apenas uma lâmina também branca. Disse ter cruzado, ainda criança, três vezes a nevasca. Dos olhos um brilho azul perfurava a calma dos presentes.

II.I – O ESTRANGEIRO FANTASMA

          Estranhou muito, o comerciante, ao abrir sua tenda logo pela manhazinha e ver um semblante solitário vir pela estrada do norte. Aquela estrada ia direto para o norte até terminar nos ermos antes da nevasca e nada havia lá há muito tempo. Um homem sem montaria não pode ter vindo dali, deve estar perdido, bem perdido.
          O sol fraco, já batia inclinado na estrada. O comerciante apertou os olhos e viu um jovem crescer pela estrada. Atrás dele os montes circundantes subiam. E ao ver os montes o comerciante levou uma pontada de seu passado. De lá vieram, há muito tempo, os homens e seus lobos. Lembrou-se das noites em claro, escondido em abrigos, comendo pouco e roubando tudo quando podia. Virou o rosto para o povoado e viu ainda os restos daquele tempo. Escombros do templo que ainda não foi reconstruído. Esforçou-se e não conseguiu lembrar-se dos tempos antes da desgraça. “A vida é desgraçada, não há tempo antes da desgraça”, disse para si.
          O estrangeiro já entrava na cidade e o comerciante firmou os óculos, franziu o cenho e fitou a lâmina carregada pelo jovem. Uma espada curta de metal branco. “Que criança tola pintaria uma espada de branco? Talvez a tinta seja venenosa”, disse baixinho para si.
          O estranho balançando sua espada sem bainha nem fivela conforme andava, olhou para o comerciante como adivinhando as intenções do homem para com seu bem. O vendedor segurou a aba do chapéu num cumprimento cordial e respeitoso, mas nenhum aceno recebeu em troca. Torceu o canto da boca e teve a certeza que teria aquele artefato de qualquer maneira.
          Os poucos e simples moradores observavam a chegada do forasteiro um tanto assustados. Não era comum viajantes naquelas terras, tão ao norte. Muito menos vindos das montanhas circundantes antes da nevasca. Enquanto os homens saiam de suas casas para a labuta, cruzava pela vila o estranho acompanhado de mistério.


          Em sua amarga solidão veio do norte distante e logo levou a alcunha de feiticeiro. O bruxo da neve. De tez branca e espírito negro, assustava os animais e espantou a caça, disseram. Pois no dia em que entrou na cidade nenhuma sorte trouxe consigo. Acidentes inexplicáveis e mau agouro se abateram naquele dia claro na vila do norte.

Cruzou a cidade. Não ficou nem trocou palavra alguma. Diziam: “o bruxo sabe que não é bem vindo”. Seu olhar agudo também causou nos moradores, “ele penetra na alma pelos olhos!”.
Silenciou a algazarra dos animais de caça acorrentados juntos esperando o sinal de seu mestre para correrem livres. Os predadores ali presos, em fúria, pareciam amedrontados pela aura do estranho.
          Próximo do limite sul do vilarejo olhou em volta, os muros baixos, os destroços velhos de algo ainda não reconstruído. Foi até o local e vasculhou entre os escombros. Vários olhos o seguiam de soslaio, poucos ousavam olhá-lo diretamente. Foi comum um medo incomum. Poucas horas esteve ali, horas contadas repetidamente e por tantas vozes que poderiam ser anos.
          Saiu como entrara, rumando sozinho e em silêncio e levou consigo seu mistério. Deixou uma curiosidade amedrontada cravada na alma de cada individuo do vilarejo do norte. Os mais sensatos, alguns dias depois, afirmavam certeiros “era um desertor ou desgarrado d’alguma tropa”. O acontecido dos animais de caça marcou uma fama de druida. Como não disse nome, nem sequer sabiam se tinha, referiam-se ao estranho como Druida Fantasma.
          E realmente nenhuma caça foi encontrada naquele dia. Um vento estranho soprou do norte trazendo uma fina e fria chuva. Correu no fundo do espírito de cada homem e mulher naquela manhã que algo aconteceria de ruim.
          O mercador passou um dia amargo. Não deixou se impressionar pelas invencionices do povo sem conhecimento. Pouco conhecimento muita crendice, suspirou. Sabia bem dessas coisas, pois de crendices vivia. Tirava seus maiores lucros em peças “sagradas”.
          Não se intimidou, portanto. E durante todo dia ouviu estranhas histórias sobre o “bruxo da neve”, “o druida fantasma” o “o feiticeiro do norte”. A noite, na taverna, interpelou impaciente um homem:
– Chega, esse homem cruzou em meia hora nossa cidade, e sem dizer nada levou mais nomes e histórias que qualquer um em anos. Vou mostrar que não passa de um maluco morto de fome.
          E saiu batendo a porta certo de juntar suas coisas e ir no rastro da fama do bastardo. Aquela espada, nesse vilarejo, pode alcançar grandes quantias agora. Talvez deva aumentar as crenças para vendê-la melhor.

Contos do Norte

Inicio a postagem de contos sequenciais que escrevi. Tenciono voltar a escrevê-los. Vou postar aqui para suas críticas e sugestões, reunir forças para dar continuidade. Abraço. 

INTRO

O pequeno é capaz de feitos tais que a própria terra dividir-se-ia em duas. O poder é algo tão tênue e subjetivo, transcende a força ou tamanho. Mescla rigor nas palavras e precisão nas ações. Conto a história de um ser assim.

I – PASSADO NEGRO

A neve não seca apenas as faias nas terras ao norte do mundo. Qualquer vontade fraqueja no espesso dilúvio congelado cinzento que corre a esmagar o florescer da vida. Nada mais justo de a água, mãe da existência, tenha o direito de ser carrasco em terras malditas. Nenhuma esperança penetra na nevasca, não há caça além de meio dia de caminhada neve adentro.

Nos ermos ao norte do mundo um continente de gelo bota limite na terra dos homens. Ventos de navalha sopram e a solidão congela o coração do viajante antes do ar seus dedos. Um lugar infernal, intransponível, inabitável. 

Todas as alcatéias já seguiram seu instinto migrando para o sul e nesse tempo um pequeno grupo de larápios fazia abrigo nas bordas do terreno de gelo árido surpreendendo os lobos cansados. Os fortes animais foram escravizados e corrompidos pela vileza de rufiões, desonrados e assassinos daquela região. Tanto homens quanto lobos tornaram-se animalescos.

Afloraram suas bestas interiores as feras em comunhão. Aterrorizaram todo um país. Nada os desafiava. Tinham estatura baixa e alguns até montavam seus lobos. Ferozes, carniceiros e sedentos. Não seguiam líder ou lei. Endureciam sua conduta mais e mais ao ponto de serem frios como a neve e firmes como a espada. Não há cura para o ferimento de uma lamina fora da lei, apenas outra força maior poria fim às desgraças daquela época.

Alguns heróis fizeram nome lutando, mas viraram mártir antes de exterminar o mal dos homens lobo. Campanhas foram feitas, cercos, ataques. As investidas tornavam comum a brutalidade. Em todas as terras a vida perdia o valor.

O medo inunda os povoados. Cada objeto de valor carrega uma aura malogra. Músicas monotemáticas falam de morte. Quilômetros de cercas brotam da terra, jaulas, fossos, armas. Em nome da paz e da defesa desenvolver-se-ia alta cultura bélica, de ambos os lados. Fornalhas coravam a terra, fumaças borravam os céus, a procura dos metais rachava montanhas. O inverno e a noite, antes exaltados pela poesia, agora usados como tática militar. Dias tristes. As garras desse tempo negro deixariam sequelas na humanidade para além de muitos séculos.

O tempo, contudo, trouxe longas barbas às faces dos homens do norte e canseira a seus lobos. Mas o mal já havia sido feito. Na batalha, às margens da nevasca, onde o ultimo lobo debandou e o ultimo assassino respirou uma criança nasceu. Ninguém saberia de sua existência pelos próximos anos. Era filho bastardo de um cavaleiro com uma escrava do norte. Foi o espólio da guerra. O mestiço. E lá, na beira da neve interminável abandonado. Sua mãe não viu seu rosto e seu pai nem soube de sua existência. Muito se especula sobre sua infância. Foi abandonado, criança, e o único fato conhecido é que sobreviveu. Não tinha tamanho, mas era gigante em fúria. Um espírito vibrante, olhos azuis vivos e penetrantes e pele branca como a neve.

O empresário e o hippie

Era uma vez, dois meninos: um loiro e magro, outro moreno e baixo, mas isso não vem ao caso. O caso é que foram amigos desde criança, mas cresceram e foram pra faculdade. Perderam o contato nesse tempo e nunca se encontraram durante as férias. Eram os tempos antes da internet (não muito antes), tudo era mais complicado.
Qual foi o curso de cada um, também não interessa; interessa o ser que cada um formou nesse meio tempo: o loiro e magro virou empresário, o moreno e baixo virou hippie.
Já formados se encontraram e se assustaram com o que o outro havia se tornado, mas foram juntos tomar cerveja e discutir o caso. Cada um tinha um bom argumento pra vida que escolhera: liberdade; conforto; vida sem rotina; estabilidade; não se prender a alguém; mulher e filhos. Assim foi a discussão por um longo tempo. 
Depois desse dia, levou anos para se encontrarem novamente. E foi um susto no dia em que isso aconteceu: o loiro e magro agora era hippie e o moreno e baixo virou empresário.
Nunca mais foram felizes.

Óculos

Philip estava jogando vídeo game quando teve a impressão que algo não estava certo.Eram seus olhos; doíam e lacrimejavam. Precisava ir ao oftalmologista com urgência.

Chegando à clínica, prestou os exames; não sem antes ser alertado pelo doutor que ele deveria ficar o resto dia em repouso, pois teria dificuldades para enxergar por um intervalo de tempo de algumas horas.

Foi para casa com o resultado nas mãos, tendo a certeza de sua próxima parada: Ótica – uma loja de óculos. Escolheu a armação e combinou o preço, vinte e quatro horas para a entrega. Ir para casa, dormir, longa espera. No dia seguinte lá estava ele, seu par de óculos novinho em folha.

Abriu o pacote, provou – tinha ficado torto. Bem torto. Teve certeza de sua próxima parada: DERME – uma clínica de cirurgia plástica. Pediu para o doutor consertar seu rosto.
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