Arquivo da Categoria: Anna Poulain

Trinca e cinco

Não te ver
É mais que morrer
É jogar milho numa praça sem pombos
É o coração aos tombos
Esperando envelhecer

Não te ver
É dor de ferro em brasa
É o corte da asa
De um pássaro desenganado
É carne dilacerada

Não te ver
É menos que viver
É engolir o choro do samba
Num carnaval feito de quarta
É o cortejo do enterro

Pra que a colombina parta.

Anna Poulain

Costura

Meu novelo quer ser nó
Faz um emaranhado de sóis, luas
Cheiros, gostos, rostos
Ora decifro, ora vejo vazar
Por entre dedais e agulhas

Vou desenrolando fio a fio
Para no mundo não tropeçar
Costuro o retrato de meu ser
Tramando e desmanchando
Dedos gastos de recordar

A trama configura o desenho
Pontos desalinhados pela dor
Querem ser livres do esboço
Saltam as veias e texturas
Para arrematar a vida em amor

Anna Poulain

Amarelazular

Não quero você pra mim
Quero do meu lado
E um amontoado de risadas
Quero tudo e o nosso nada
Ócio e suor
Leitura e textura
Dançar pra chamar chuva
Correr pra virar bruxa
Sangrar pra virar amor

Quero páginas sujas e lidas
O doce mais doce (que cebola)
Cada cor dentro da outra
Pra amanhecer no debruçar
Sopro e calor
Discos e riscos
Vomitar borboletas escritas
Transcender pra virar céu

E amarelazular!

Anna Poulain

A qualquer menino desconhecido morto sem piedade

A calçada é a cama
Segura rua
A lápide
Certeza de dias melhores
O roto
Vestido de restos do senhor
A alcunha
De coisa alguma, ainda que carne
E o despudor do mentor da barbárie infantil
Cegueira ultrajante em horário nobre
Nunca mais será aquilo que não foi
É a bala, a bola e a mola compressora
Opressora, rasga o menino
Franzino destino.

Anna Poulain

Tuas cores

Da janela espero o dia amanhecer
O sol já vai chegar
Amarelo como o dia deve ter
Você vai despertar

Arco-íris, sete cores em teu ser
Pra um dia eu descobrir
Qual a cor e o segredo pra fazer
Os teus olhos sorrir

Tons de verde
Vejo flores em você, queria te dizer
Teu perfume, um jardim dentro de ti
Vem me entorpecer

Céu azul, vejo raios furta cor
O sol já vai se pôr
Acontece quase sempre sem querer
O vermelho do amor.

Anna Poulain

Soneto da morte do amor

desista do meu choro, suplico
pois é ele que me escolhe
o choro do cavaquinho, do Chico
o choro do morro que engole

chega de só querer mar vasto
concentra no miúdo, no luzeiro
é ali que nasce o mundo casto
chega deste choro milagreiro

provoca o riso mesmo com lágrima
finge, disfarça, que logo passa
e vai manchando página por página

é do chorar que se escreve a dor
e da tristeza se arranca a sorte
de um amor, que por ora é morte.

Anna Poulain

Devaneios

Absorta e casta em profundo descanso,
contentava-me em saraus e valsas
quando o destino julgou que o momento,
era propício.

Eu, como uma fera amontoada num canto,
de mãos e pés atados,
sem nenhuma relutância em extrair a mordaça seca e suja,
subitamente derreto-me sob tua face
como se minha alma, ora nua,
fosse espelho da tua carne.

De que me serviriam os olhos
que os vermes hão de saborear,
se não pudesse observar
o perfeito desenho dos teus lábios,
enquanto proferes devaneios e conquistas corações inóspitos?

Amado que me toma!
Venha com a noite calma e negra.
Oh, inspiração!
Oh, cheiro do êxtase e do vinho tinto
que ora derrama em nossas veias.

Anna Poulain