Arquivo da Categoria: Ana Oliveira

O rubor da saudade

O êxito dos nossos desencontros
Provoca o desjejum da ausência
Que merece ficar à míngua de nós
Morrer vazia de obscenos abraços

Quanto à saudade, guarde para ela
O melhor canto da casa, da mala
Que de tão cheia de fome, avermelha
Face ao rubor da poesia que exala

Já sobre o amor sem escudos
Um pouco de suspiro cheira bem
No corpo que esconde no escuro
A ânsia pelo tempo de alguém

Ana Oliveira

O amor que era de vidro

Já não sei mais escrever sobre nós
Há uma lacuna na pele e no peito
Há também uma memória escassa
Que se perde na casa dos sentidos
Que sem cheiro, abraço ou canção
Realçam as cores do esquecimento

É como uma fina xilogravura
Que a mão do tempo não apaga
Mas empalidece suas linhas

Escrever sobre nós ainda é
A tentativa de nos resguardar
Dessa lua viúva de boca amordaçada
Desse indócil acaso de pés acorrentados

Ana Oliveira

Camuflagem

Sombra deserta, deserdada
Pinta a poesia de palavras
Cresce em meu corpo, o mundo
Provoca a intimidade calada

Se enxerga letras no ar
São meus versos o que vês
Camuflados de melancolia
Fadados ao desmanchar

Mescla de terra e devir
Que o livro de cor entoa
Andaluz e pálido sentir
Que a alma se vive, voa…

Ana Oliveira

Tolices

Se depois de triste, alegre
E se de feliz, melancolia
A vida cospe a toda hora
Negando tudo que se queria

Se brinca de viver a verdade
Ainda assim não se mente
Esconde talvez a saudade
Que obriga o tempo da gente

Se a lua trouxesse tudo
O que se sonhou um dia
Seria o intento do desejo
O amor que se merecia

Ana Oliveira

Três dias

Três dias com você não seriam bons. Seriam três dias em que me acostumaria com teu corpo quente, tão incomum em minhas madrugadas inóspitas. Talvez fossem três dias onde eu esqueceria de apagar as velas ou a chama do fogão. Três dias. Três longos dias que seriam como três ligeiras horas. Certamente setenta e duas horas de batimentos cardíacos acelerados, não da saudade cotidiana, mas da espera que acontece, do desejo que não tarda. Seria pelo menos três cafés acompanhados de olhos que não querem fechar para não perder o outro de vista. Três pães temperados com o gosto doce da noite que ainda não dormiu.
Três dias com você resultariam em três noites. Três noites em que esqueceria a fome que se come e cessa. Três madrugadas em que a sede seria apenas de mais um beijo molhado de vinho e que este, seria apenas aquele que precederia o próximo. Três dias com você significaria os únicos três dias sem saudade desde que te conheci. Minto. Seriam apenas três fins de tarde em que não andaria calmamente, correria…
É… Três dias com você não seriam bons. Bom é uma palavra calma, delicada, útil. Mas três dias inteiros com você não seriam calmos, delicados, tampouco úteis. Essas quase cem horas em que minha alma não desconectaria da tua seriam rasgadas, suadas, abusadas e inúteis. Inúteis para o resto do mundo que lá fora continuaria a correr. Três dias com você seriam sem hora, nem ponteiro. Sem amanhecer, nem anoitecer. Três dias ao seu lado seriam três marcas no espaço onde o tempo seria medido apenas pelo intervalo do nosso amor.

Ana Oliveira

Coração desordenado

Se bate as asas do peito
Espera que o olhar aproxime
Tudo em ti é desordem
Ainda que o verso rime

Se esconde os versos do acaso
E sufoca a parca ternura
Tudo em ti ainda é desordem
Embora se arranque a amargura

Se corrige as horas tortas
Do balé das voltas do vento
Tudo em ti é sempre desordem
Mesmo que se pare o tempo.

Ana Oliveira

Soledad sonora

El pensamiento que canta
La musica sofocada
Hace una soledad sonora
Para despoblar su morada

El claro silencio luminoso
De las memorias en conmoción
Es como bailar con el peligro
En el trayeto invisible del corazón

La falsa neutralidad del sueño
Es la flor de ese torbellino
Que con vientos dibuja la vida
Y apunta a un fin en desaliño

Cuando la alma es oscura
Y el miedo expuesto, abierto
En la herida más visible que la belleza
El destino del cuerpo es descobierto

Ana Oliveira

Tradução:

Solidão sonora

O pensamento que canta
A música sufocada
Faz uma solidão sonora
Para despovoar sua morada

O claro silêncio luminoso
Das memórias em comoção
É como bailar com o perigo
No trajeto invisível do coração

A falsa neutralidade do sonho
É a flor do vendaval
Que com ventos desenha a vida
E aponta para um fim irreal

Quando a alma é obscura
E o medo exposto, aberto
Na ferida mais visível que a beleza
O destino do corpo é descoberto

Ana Oliveira

A chuva dos olhos

Hoje, ao acordar, chovia. Não aquelas gotas cinza-gelo dos dias que lá fora, proclamam a chegada do outono, mas aqui dentro. Ao abrir os olhos, vi uma nuvem grudada no teto da minha casa e outra alojada no meio do meu peito. Então esperei que chovessem braços, que deles viessem mãos e delas surgissem afagos capazes de arrancar esse cansaço que a alma chama de saudade. Desejei que o chão revirado pela enxurrada se abrisse e raízes macias com cheiro de terra molhada subissem em minhas pernas, emaranhadas como um abraço deve ser, firme e recíproco. Mesmo com medo, ansiei que um vendaval com nome de moço chegasse, anunciado por uma brisa quente e que logo depois, fizesse meu coração levantar voo junto aos móveis e sonhos, num insano e mágico arrebatamento. Ao acordar, implorei ao vento para que abrisse meus olhos grudados pela chuva e pela dor de um sentir sujeito a morrer seco, sem palavras, desesperado e só. Porque até para maldizer o amor, tem que amar.

Ana Oliveira