Arquivo da Categoria: Ana Oliveira

A(s)sombra

Sempre há você em mim,
Mesmo não havendo
Disfarce para a sombra
De dúvidas que assombra
Meu coração ao meio-dia
Da tua alma que grita
Por um pouco mais de ar
Pra ânsia do meu peito
Asmático destemido amar
Que mesmo já sem chance
Atropelou o destino a tempo
Comeu o vento pelas bordas
E depois de você visitou
O relento de qualquer outro
Sem ousar ser de mais
Ninguém.

Ana Oliveira

Madeleine

Ando por aí quase sem mim
Querendo abraçar saudades
Num caminho feito de partidas
Deixo o mar de lágrimas vividas

Ando também quase sem ti
Com olhos cheios de ausência
Regresso a um eu que era teu
Que do ontem, o hoje comeu

Desse amor que não pode ser
Quero dele que viva em alguém
Como uma Madeleine mordida
Que no devir não fora esquecida

Ana Oliveira

O beijo

De tão ausente e distante
Sem mais textura, nem tempo
Dormindo frio ao relento
Matou de espera o amante

Assim com a pele rasgada
Sentiu que nada sentia
De tudo que a boca sabia
Ao desejo nada adiantava

Em pensar que de loucura
Um dia incendiou a face
Que agora é rubro disfarce
Do beijo que lhe tortura

Ana Oliveira

Encuentros imaginarios

En encuentros imaginarios
Te veo en medio a la multitud
Planeo mis palabras ensayadas
Salgo a tropezar en mi inquietud

En una soledad ansiosa y callada
Con invencible deseo de niña
Vivo de toda sorte, aislada
A buscarte como ave de rapiña

Sin ti, mi memoria es una luz
Que alumbra un ricón sombrío
Hecho ojos paganos de un andaluz
Desenganado amor en desvarío

Tradução

Encontros imaginários

Em encontros imaginários
Te vejo em meio à multidão
Planejo palavras ensaiadas
Saio a tropeçar no coração

Na solidão ansiosa e calada
Com invencível desejo de menina
Vivo isolada de toda sorte
A te buscar como ave de rapina

Sem ti, minha memória é uma luz
Que ilumina um canto sombrio
Feito olhos pagãos de um andaluz
Desenganado amor em delírio

Ana Oliveira

Amor chuva

Sem saber por onde começar
Nem quem querer
Cansado da fama de tudo poder
O amor se fez chuva
Pra não ter que explicar
E chegar sem pedir
Choveu assim
Como, quando e onde quis
Levou as coisas do varal
E ignorou os desavisados
Tão breve e devastador
Que arrasou tudo
Deixando rastos molhados
Que secam
Mas nunca são os mesmos
Penetrou na alma da roupa
E na roupa da alma.

Ana Oliveira

O sonho do outro

Um dia descobriu que vivia outras vidas. Não que lhes faltasse tal merecimento, apenas não eram suas. De pequena, inconscientemente, decidiu não viver a sua existência. Talvez por nunca ter nela encontrado sentido ou abraço. Desde então passou anos emprestando seu vazio para lotar sonhos alheios, sem que jamais algum a pudesse preencher. Vivia em uma espécie de limbo. Um purgatório de almas emprestadas que, de início, fuga, mas que depois tornara-se ofício. Certa vez, assim num piscar de olhos, fora banida daquele que, por um lapso de tempo e espaço, acreditou ser seu primeiro sonho. Ficou vagando como um depositário de desejos ambulante e fatigado, frequentando bares e becos em busca de vontades sem lar como um parasita largado à onírica sorte. Encontrou muitos deles e, ao passo em que fazia o que de melhor sabia, a mais terrível angústia lhe acometia as entranhas: não mais sonhar. Eis que um sentimento vestido do mais cruel caráter perfurara seu subconsciente e ali injetara generosas doses de ausência de ilusões. Dias e noites delirantes degustaram suas vísceras ardidas e magras em que já não distinguia o cheiro nem as cores das coisas. Tudo parecia amarelado e as vozes agiam tão distantes quanto os rostos desfocados. Queria um sonho! Poderia ser qualquer um. Jamais os havia escolhido, tampouco subestimado. Cansada e aturdida, sem o único dom que lhe tornara útil, ingressou em uma longa viagem rumo ao lugar para onde vão todos as quimeras perdidas. E fora ali, na antessala da última gota de sangue, quase sem mais tempo ou sorte, que encontrou os sonhos que incansavelmente buscara, e eram todos seus.

Ana Oliveira

Metamorfosis

Metamorfosis

Maldita sea la poesía
Que nos hace metamorfosear
Los vómitos en cosas bellas
El poeta pega las tristezas
Lava bien, rutina, amasa
Mistura con ingredientes dulces
E vira verso, después,
Distribuye en pociones generosas
O homeopáticas por el universo
Va a depender de la dosis del alma
Que necesita cada corazón
Cuando el dolor quiere ser amor,
La pluma sienta e escribe.

Ana Oliveira

Tradução:

Metamorfose

Maldita seja a poesia
Que nos faz metamorfosear
Os vômitos em coisas belas
O poeta pega as tristezas
Lava bem, separa, amassa
Mistura com ingredientes doces
E vira verso, depois,
Distribui em poções generosas
Ou homeopáticas pelo universo
Vai depender da dose de alma
Que cada coração precisa
Quando a dor quer ser amor
A caneta senta e escreve.

Ana Oliveira

Choro canção

Pega teu coração na mão
Aperta até esmagar essas palavras
Que vomitam ordem aos teus medos
Junta a coragem que te resta
E não diga mais que vai ser sempre assim,
Pedaços dilacerados pelo chão
E vontades pisadas pela garganta muda
Será que sorrir sem memória
É melhor que viver de lembranças?
Pior ainda é saber,
Que de morrer de amor ninguém morre
Que o trabalho dignifica o homem
Mas a obrigação destrói o artista
Junta teus cacos
E engole o álcool num choro só canção
De manhã, pede mais noite no quarto
que a lua amanhece com fome
Pois o tempo é aquele que diz sim
E aquele que diz não.

Ana Oliveira

Choro canção

Pega teu coração na mão
Aperta até esmagar essas palavras
Que vomitam ordem aos teus medos
Junta a coragem que te resta
E não diga mais que vai ser sempre assim,
Pedaços dilacerados pelo chão
E vontades pisadas pela garganta muda
Será que sorrir sem memória
É melhor que viver de lembranças?
Pior ainda é saber,
Que de morrer de amor ninguém morre
Que o trabalho dignifica o homem
Mas a obrigação destrói o artista
Junta teus cacos
E engole o álcool num choro só canção
De manhã, pede mais noite no quarto
Que a lua amanhece com fome
Pois o tempo é aquele que diz sim
E aquele que diz não.

Ana Oliveira