Madeleine

Ando por aí quase sem mim
Querendo abraçar saudades
Num caminho feito de partidas
Deixo o mar de lágrimas vividas

Ando também quase sem ti
Com olhos cheios de ausência
Regresso a um eu que era teu
Que do ontem, o hoje comeu

Desse amor que não pode ser
Quero dele que viva em alguém
Como uma Madeleine mordida
Que no devir não fora esquecida

Ana Oliveira

Estradas da vida e vida na estrada

A vida é uma eterna estrada a ser percorrida
Um caminho sem volta
De experiências desconhecidas

Para a grande maioria
O trajeto se segue sem atalhos
E é só com árduo trabalho
Que a estrada aos poucos se constrói

Enquanto o cansaço corrói
E as forças vão se perdendo
É nas dificuldades que seguimos crescendo
E é errando que aprendo

Aprendo e evoluo nessas andanças
Sem pestanejar e nem perder as esperanças
Tento permanecer inabalável, intacto a mudanças
Porque depois da tempestade vem a bonança

Seja na carona ou na direção
Pra frente ou na contra mão
A pé ou de carrão
Os caminhos sempre se cruzam
E no decurso de segundos
Acidentes de percurso
Batidas sentimentais
Acidentes emocionais

Muitos vivem nas costas de outros
Por preguiça, maldade, ou até por falta de ação
Como quem pula a catraca ao subir no busão
Ou como quem fura a fila do caixa
Ultrapassagem fora da faixa

Em alguns momentos do trajeto
Podemos até estacionar?
Quando não sabemos quando, como e onde se quer chegar
Ou quando nos vemos com problemas nas engrenagens
Com problemas externos e internos que dificultam nossa viagem
E para dar a partida de novo
Podemos depender de outros
Ou também, consertar-nos sem ajuda, autônomos
Mas com ferramentas escassas e o cansaço do caminho
É difícil fazer tudo sozinho

Mas são poucas as vezes na vida
Em que não temos um amigo por perto
Mas um amigo verdadeiro é raro

Aquele amigo e passageiro
Que nos ajuda a empurrar o carro
E nos põe de volta a rodar em paz
Deixando todos os problemas pra trás

Então, na vida, temos de ser um pouco de tudo
Motoristas, mecânicos e passageiros
Construtores, soldadores e mochileiros
Nas caronas que a vida nos dá
Mas o mais importante de tudo
É sempre manter essas amizades que renovam nosso ar
Que nos causam bem-estar
Pois de que adianta a estrada toda
Sem ninguém pra compartilhar?

A vida na estrada
E as estradas da vida
As amizades e o tempo
Curam qualquer ferida.

Felipe Daltoé

Balança descalibrada

Balança imprecisa,
A esperança, ofuscas
Tens fama de justa
Mas te chamo indecisa

Teu assento é na alta cúpula
Vangloria-te de teus feitos
Exerces juízo sobre os outros
Mas não atentas pros teus defeitos

Proferes vacilantes sentenças
Reparas na pomposa aparência
Ingênua e vaidosa solene
Desconheces toda essência

Qual é tua medida?
Qual é teu critério?
Deveras, te importas com a verdade?
Ou basta o título do teu magistério?

Em teus discursos eloquentes,
Por que invocas a deidade?
Tu realmente a temes?
Ou exime-se da responsabilidade?

Taparam teus olhos
Que não vês toda injustiça?
Receias a retaliação dos fortes
Por isso, dois pesos e duas medidas?

Pensas estar em seguro
Acima do bem e do mal
Mas te vejo em cima do muro
Longe do imparcial

Obscureces os fatos
Guardas uma só versão
Respalda-te na lei
De tua conveniente interpretação

Libra, libra
Lembra em todos os momentos:
A lei do homem regula sobre meus atos
Jamais sobre meus pensamentos

Perecendo, o corpo, o ideal é intacto
Continua, a luta, apesar do lamento

Se não me tens nada a dizer
Permanece em silêncio
Já foste desmascarada
Balança descalibrada

Luísa Steffens

O beijo

De tão ausente e distante
Sem mais textura, nem tempo
Dormindo frio ao relento
Matou de espera o amante

Assim com a pele rasgada
Sentiu que nada sentia
De tudo que a boca sabia
Ao desejo nada adiantava

Em pensar que de loucura
Um dia incendiou a face
Que agora é rubro disfarce
Do beijo que lhe tortura

Ana Oliveira

Cigana devoção

A alma bailando em chamas
O corpo movido a versos
No peito rubores rítmicos
Beleza e paixão emersos

Movimentos em liberdade
Belas vestes esvoaçantes
Ao som da prosperidade
Moedas cintilantes

Rosa vermelha em deslumbre
Cabelos negros ao vento
A cabeça erguida enseja
O fatal empoderamento

O bater dos pés descalços
À terra, clama firmeza
O elevar das mãos ao alto
Saudações à natureza

Entre palmas e ralhos agudos
Entoam-se pandeiros e violinos
Sob a luz da fogueira flamejante
Um exuberante colorido

No rodopiar incansável
Giram lenços e pedras atrelados
Misturam-se ao som do batuque
De um coração desordenado

Com devoção, a cigana celebra
O inefável vigor feminino
Faz, da dança, fervorosa oração
Harmonizando corpo, alma e sentidos
Numa sublime e mística comunhão

Luísa Steffens

Encuentros imaginarios

En encuentros imaginarios
Te veo en medio a la multitud
Planeo mis palabras ensayadas
Salgo a tropezar en mi inquietud

En una soledad ansiosa y callada
Con invencible deseo de niña
Vivo de toda sorte, aislada
A buscarte como ave de rapiña

Sin ti, mi memoria es una luz
Que alumbra un ricón sombrío
Hecho ojos paganos de un andaluz
Desenganado amor en desvarío

Tradução

Encontros imaginários

Em encontros imaginários
Te vejo em meio à multidão
Planejo palavras ensaiadas
Saio a tropeçar no coração

Na solidão ansiosa e calada
Com invencível desejo de menina
Vivo isolada de toda sorte
A te buscar como ave de rapina

Sem ti, minha memória é uma luz
Que ilumina um canto sombrio
Feito olhos pagãos de um andaluz
Desenganado amor em delírio

Ana Oliveira

Amor chuva

Sem saber por onde começar
Nem quem querer
Cansado da fama de tudo poder
O amor se fez chuva
Pra não ter que explicar
E chegar sem pedir
Choveu assim
Como, quando e onde quis
Levou as coisas do varal
E ignorou os desavisados
Tão breve e devastador
Que arrasou tudo
Deixando rastos molhados
Que secam
Mas nunca são os mesmos
Penetrou na alma da roupa
E na roupa da alma.

Ana Oliveira

O sonho do outro

Um dia descobriu que vivia outras vidas. Não que lhes faltasse tal merecimento, apenas não eram suas. De pequena, inconscientemente, decidiu não viver a sua existência. Talvez por nunca ter nela encontrado sentido ou abraço. Desde então passou anos emprestando seu vazio para lotar sonhos alheios, sem que jamais algum a pudesse preencher. Vivia em uma espécie de limbo. Um purgatório de almas emprestadas que, de início, fuga, mas que depois tornara-se ofício. Certa vez, assim num piscar de olhos, fora banida daquele que, por um lapso de tempo e espaço, acreditou ser seu primeiro sonho. Ficou vagando como um depositário de desejos ambulante e fatigado, frequentando bares e becos em busca de vontades sem lar como um parasita largado à onírica sorte. Encontrou muitos deles e, ao passo em que fazia o que de melhor sabia, a mais terrível angústia lhe acometia as entranhas: não mais sonhar. Eis que um sentimento vestido do mais cruel caráter perfurara seu subconsciente e ali injetara generosas doses de ausência de ilusões. Dias e noites delirantes degustaram suas vísceras ardidas e magras em que já não distinguia o cheiro nem as cores das coisas. Tudo parecia amarelado e as vozes agiam tão distantes quanto os rostos desfocados. Queria um sonho! Poderia ser qualquer um. Jamais os havia escolhido, tampouco subestimado. Cansada e aturdida, sem o único dom que lhe tornara útil, ingressou em uma longa viagem rumo ao lugar para onde vão todos as quimeras perdidas. E fora ali, na antessala da última gota de sangue, quase sem mais tempo ou sorte, que encontrou os sonhos que incansavelmente buscara, e eram todos seus.

Ana Oliveira

Anatomia da melancolia

Olhos
Ouvidos
Boca
Respiração
Sou todo emoção

Fígado forte
Lágrimas
Fumaça no pulmão
Sou todo coração

Tendões
Músculos
Movimento
Sou todo sentimento

Cérebro
Pele
Batimentos
Sou todo sofrimento

Um conjunto de ligamentos
Que dão-me movimentos
E os ferimentos do cotidiano
Só me tornam mais humano

E os meus cinco sentidos
Que completamente enlouquecem
Quando em meu ambiente
Você aparece

O cheiro suave do perfume que me adentra as narinas
O seu olhar cativante que me fascina
A sua voz, que me amolece igual morfina
O gosto dos seus lábios nos meus, menina
E minhas mãos que tateiam seu corpo macio, quase ébrio, em que vicio

O corpo fala
E entre gritos e sussurros
Me encontro em cima do muro, inseguro
Entre o abismo da melancolia
E o abismo do amor puro

Mas sou uma pessoa de extremos em constante alteração
E em questão de minutos
Sem escolher o lado, posso dar de cara com o chão
Um bipolarismo misturado com indecisão

E é essa necessidade gritante de expressar minhas estranhezas
Que me deixa na vida com mais uma certeza
A de que a poesia é parte intrínseca da minha pessoa
E isso não é à toa

Cada verso é anatomicamente encaixado, vinculado
A organização em um desorganizado
Poesia visceral, e vital para se viver
Como se meu sangue fosse a tinta
Pro meu vício de escrever

Dores peitorais
Tinta/sangue
Libido
Sou todo coração partido.

Felipe Daltoé

Ler e escrever

A vida é um aprendizado
Um doce e amargo aprendizado…

Só aprendemos a ler
A partir de quando sabemos escrever.

Escrevemos a partir de nossas experiências;
Escrevemos nossas decisões
Baseado na escolha que não se passou a borracha.

Escrever se torna um habito
Tanto os bons quantos os maus hábitos…

De tanto que escrevemos aprendemos a ler;
Aprendemos a ler o mundo e as situações em nossa volta;
Eu pretendo continuar escrevendo…
E você?

Luiz Felipe M. Santana

Grupo de Artes e Cultura